No centro de um amplo galpão localizado na cidade alemã de Duisburg, no Vale do Ruhr, uma grande piscina ocupa o espaço. Em torno de suas quatro bordas, plateia e possíveis atores se misturam, se confundem, já que não há um espaço delimitado para ambos. Então, de repente, alguém avança, atravessa a lona e entra na água. Mas ainda assim não se pode saber se trata-se de um ator, um personagem, algum não-ator escalado pela produção ou até algum aventureiro da plateia.
Na obra do diretor italiano Romeo Castellucci, ator, personagem e público são apenas humanos, seres que comungam de uma experiência, participantes ativos de um acontecimento cênico que intenta romper com a hierarquia ou a verticalidade da comunicação. A psicina repleta de água, portanto, não é mero elemento cênico, decorativo, mas o ambiente fluido onde se dá e se misturam experiências, proposta central de "Folk.", espetáculo criado por Castellucci e a sua Socìetas Raffaello Sanzio. Uma das principais atrações do último fim de semana do festival de artes Ruhrtriennale, "Folk." pega emprestado do termo em inglês o sentido mais vago possível, o de um "povo", formado por pessoas, seres ao mesmo tempo sós e integrados em meio à volatilidade do ambiente social que os cerca.
-- "Folk." parte de uma visão em que reconsideramos a água como uma metáfora do espaço social -- diz Castellucci, em entrevista exclusiva ao GLOBO. -- A água, aqui, é como um espaço social tangível. Isso quer dizer que estamos imersos no mesmo líquido, vivemos no mesmo espaço.
E é também por isso que público e os não-atores que entram n'água estão juntos, como elementos de uma mesma massa líquida. Em seu espetáculo, Castellucci investiga o que nos leva a entrar em contato uns com os outros, o senso inato de comunidade que habita os humanos e os levam a criar e a manter sociedades, ao mesmo tempo, também, nos faz refletir sobre o oposto da moeda, o impulso que nos afasta uns dos outros, até aquilo que nos leva à solidão da individualidade extremada.
-- Nesse espetáculo, levantamos questões sobre as relações humanas, sobre o desejo e a necessidade de estarmos juntos, mas também os medos e frustrações que essa necessidade pode nos causar -- diz o diretor. -- É um trabalho que se dedica a investigar as formas mais características do comportamento humano, o senso de comunidade, separação, o isolamento. Mas numa observação à distância.
Mas ao dizer que investiga, Castellucci quer dar a entender que essas questões o motivam a criar, o que não significa que essas inquietações são traduzidas. Afinal, suas criações rompem com os elementos tradicionais do discurso teatral, o texto -- quando há -- não se atém ao dramático e a atuação está desvinculada da função de representar o mundo. O trabalho de Castellucci opta pela instauração de novas realidades, outras, não encontradas fora da montagem, possíveis apenas no espaço e no tempo da realidade imediata e presente do espetáculo. Em suma: sai de cena a mimese, a reprodução, e se dá a realidade mutante do agora. E é por isso que, num mundo novo, os humanos em cena não atuam ou dizem textos dentro da esquemática convencional. No teatro de Castellucci, estamos todos na infânica, ou seja: fora da linguagem e prontos para inventar uma nova.
-- O teatro tem a função de nos mostrar sempre a possibilidade de que pode e há alternativas viáveis para essa realidade. O teatro é um bastão ereto construído para defender a pura possibilidade contra a realidade -- diz Castellucci. -- Portanto, o teatro está "condenado" a inventar a sua própria língua a cada ocasião, em todas as oportunidades que tiver. E deve inventar também a necessidade de inventar uma linguagem. E só assim que ele deve chegar ao mundo: a cada momento, como uma estréia sem fim.
Formado em artes visuais em Bolonha, Castellucci inicia sua carreira no começo dos anos 1980, fundando a Socìetas Raffaello Sanzio ao lado de Chiara Guidi e sua irmã mais velha, Claudia Castellucci. Batizada com o nome de um dos ícones da pintura renascentista, a companhia defende uma reconfiguração não-hierárquica entre os elementos cênicos -- texto, ator, luz, som e cenário. No entanto, a visualidade não deixa de se sobrepor como principal elemento de sua escritura cênica. O que faz até hoje o diretor se sentir um estranho no ninho do teatro.
-- Comecei a fazer performances na Academia de Belas Artes de Bolonha, por volta de 1980, e foi a partir da performance que eu acabei no teatro, mas sem saber o porquê -- diz. -- Eu realmente nunca escolhi o teatro. Aconteceu de ser assim, sem que eu necessariamente quisesse. eu ainda considero o teatro como uma casa estranha, que não é bem minha. eu ainda a vejo com muita suspeita e desconfiança.
Aliás, a desconfiança, ou o ímpeto questionador parecem ser o guia estético e político da companhia desde a sua criação. Nos anos 1980, portanto, a iconoclastia guiava as considerações e apresentações do grupo.
-- Era um tipo de criação política, sobre a reconsideração do papel da imagem, que deveria renascer das próprias cinzas para que pudesse a ser novamente considerada.
Já os anos 1990 foram marcados por ataques direcionado aos clássicos, "mas com rigor filológico", diz Castellucci. Foram postos na berlinda "Oréstia", "Júlio Cesar", entre outros clássicos e mitos, o que se estendeu até a recente "Sul Concetto di Volto nel Figlio di Dio" (2010), em que uma imagem de Cristo afixada no fundo do palco era aviltada por granadas arremessadas por crianças e escrementos lançados por um idoso incapaz de conter o funcionamento de seu sistema digestivo. Visualmente incisivos, os trabalhos não se punham contra o poder da imagem, mas de suas desgatadas representações. Ao subverter o ícone, o grupo criava uma nova imagem, nova, mas cuja força derivava do poder mesmo da imagem anterior.
-- Acho que apesar de toda iconoclastia, paradoxalmente, talvez por excesso de fidelidade a estes mesmos clássicos, sinto que, no fim, redimensionamos justamente toda a força e poder mitológico que esses clássicos têm.
* Integra da reportagem publicada no Segundo Caderno do dia 5-9-2012
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
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